
RESENHA POR VICTOR HUGO VALENTE E FOTOS POR KAUÃ NASCIMENTO.
O Balaclava Fest chegou em sua 15ª edição com um line de peso que chamou a atenção da internet. O Festival reafirmou a sua base de música alternativa por meio de novos nomes como Geordie Greep e bandas consagradas como Yo La Tengo e Stereolab.
O local foi o conhecido Tokio Marine Hall na zona sul (longe de casa) e contou com a clássica estrutura de dois palcos. Palco Vans, localizado próxima à entrada evento e Palco Balaclava localizado nos fundos.
Abaixo da entrada, por meio de uma rampa discreta, haviam merchs dos artistas e um fumódromo que ficou lotado hora sim hora também.
O espaço da frente ficou aglutinado com suas mil coisas. Era o palco, comidas, caixa, fila para entrar no outro palco… enfim, uma dinâmica que, ao longo do evento, se mostrou problemática.
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Gab Ferreira abre o evento no Palco Vans

O show da cantora e compositora Gab Ferreira foi uma grata surpresa. Os arranjos mais espaciais contando com sintetizadores e um baixo dominante proporcionaram uma espécie de cama para a vocalista que esbanjou sua voz.
O som ficou um pouco embolado no começo, fazendo com que a bateria e o baixo engolissem as outras cordas, além do vocal embolado da Gab que foi resolvido.
Na escolha de repertório, a artista optou por mostrar novos trabalhos e cantar alguns sucessos de sua carreira, tornando um show rápido e divertido para quem estava escutando pela primeira vez.
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Em um espaço claustrofóbico, Walfredo em Busca da Simbiose seguiu os trabalhos no Palco Vans

Caixas, filas quilométricas, caminhadas para o merch e cervejas caindo no chão formaram a paisagem sonora e visual do show da Walfredo em Busca da Simbiose.
O som tava bem redondo e o palco recebeu os trabalhos mais contemporâneos da banda paulistana que se destaca pela atmosfera intimista, delicada e com vocais muito melhor explorados do Lou Alves.
Durante o show, os portões para o Palco Balaclava abriram, mas o show continuou lotado.
A apresentação convenceu e agradou tanto os curiosos quanto os fãs da banda.
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O queridinho Geordie Greep abriu o Palco Balaclava prometendo um show “brutal”

Geordie Greep tem uma profunda relação com o Brasil. Seu novo disco, “The New Sound”, tem percussões e temáticas bastante latinas, e a banda que o acompanhou parece ter entrado na mesma onda do ex-vocalista do black midi.
Após um show aclamado no Sesc Jundiaí e no Bar Alto, o frontman prometeu um show “brutal”.
Apesar da sinergia com a banda e improvisos para lá de impressionantes, o show soou rápido demais, como aquele protocolo que seguimos a contragosto, e com uma distância latente entre público e artista, algo que não ocorreu nos shows anteriores do artista.
Os vocais embolados estavam presentes para quem se aventurou na grade. Já para quem viu do meio da pista teve um som mais agradável e que chegou quase limpo.
Se pudesse definir o show de Greep seria como um sorriso amarelo de gratidão. Foi bom? Excelente! Todos queriam mais? Com certeza!
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Jovens Ateus se consagram a melhor atração nacional com muito post-punk

A banda de Maringá que teve seu primeiro álbum lançado pela Balaclava foi uma surpresa absoluta. Show lotado, aplausos e atenção fixada no palco. Os Jovens Ateus produziram um dos melhores shows da noite focando em sua estética post-punk industrial e cantando músicas do álbum “Vol 1”.
Além do genial cover de “Igreja” dos Titãs, que mostrou uma vertente bastante rasgada e política da banda que chamou a atenção de quem passava pelo hall do Tokio Marine.
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“Ame-o ou Deixe-o”: Yo La Tengo protagoniza o show mais polarizado da noite

A ansiedade para o show da Yo La Tengo no Palco Balaclava era evidente. Os fãs mais assíduos do trio de Nova Jersey esperavam a delicadeza das letras com as distorções pesadas que compõem a discografia da banda.
No repertório escolhas esquisitíssimas. Um show que foi tomado por melancolia em seus 40 primeiros minutos, revogou com força e sem progressão uma alegria descomunal nos últimos minutos.
Ao final isso não parece ter agradado muito.
Fãs mais assíduos esperavam um maior contingente de sucessos e um repertório em que Georgia cantasse mais. O maior impeditivo parece ter sido uma dor de garganta da multi-instrumentista da banda.
Em panorama pessoal eu adorei o show. Melancólico em muitas camadas, distorções que chegaram bem aos ouvidos e uma apresentação dos trabalhos novos, embora a dureza na progressão de intensidades entre músicas tenha sido bastante grosseira.
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Fechando o Palco Vans, Horse Jumper Of Love entregou uma performance incrível

Nesse ponto os pés já estavam doendo e a fome batendo. Sair do Yo La Tengo e cair no Horse Jumper of Love foi simplesmente inacreditável.
O trio de Boston proporcionou em seu repertório sensível, lento e com muita originalidade, um som que lotou o Palco Vans.
A banda entrou como substituta no lugar da Fcukers, após um convite para integrar a banda de abertura dos shows do Tame Impala, e parece ter sido um acerto do destino.
Quem parou pra ver o show ficou impressionado com o repertório voltado para o Slacker Rock e o som perfeito que vinha do palco com maior contingente de problemas.
Um dos melhores shows da noite que me fez ouvir o novo trabalho de estúdio da banda.
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Stereolab fecha o evento com chave de ouro e se confirma como atração principal

O que dizer de Stereolab? A banda chegou como principal liner, se confirmou apesar de alguns contrapontos no som e fez todo mundo se emocionar e dançar junto com um repertório acertadíssimo.
O novo álbum da banda “Instant Holograms on Metal Film” enamoraram clássicos do “Dots And Loops” e “Emperor Tomato Ketchup”, tornando a atmosfera do show algo incrível.
Fãs e leigos com a banda saíram boquiabertos do show que se sagrou o melhor da noite, tendo uma relação boa com a plateia e performando perfeitamente no palco.
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Para além do som
O Festival acertou demais na curadoria dos artistas. Apesar da intensidade das bandas serem médias, o tempo passou rápido e quem curtiu o evento viu o tempo voar.
As ativações eram discretas, o que contribui para um festival FOCADO EM MÚSICA e não um espetáculo de sujeira visual. Porém, o primeiro palco segue sendo uma escolha questionável.
Além dos problemas de acústica, a luz que entra de fora atrapalha a iluminação geral do palco, além de aglutinar pessoas em um ambiente não exatamente espaçoso, criando uma confusão entre pessoas que querem comer um cachorro quente e quem quer ouvir a banda do palco.
Proporcionar um espaço para trânsito da imprensa deveria ser algo a ser pensado. Já que além de não haver uma sala de imprensa — o que em algum sentido é compreensível — não há nenhuma identificação de quem está trabalhando no local, o que dificulta o trânsito dentro da pista para uma melhor captação de imagens, além de haver perdas entre os shows durante o deslocamento de um ponto ao outro.
Ao final do evento eu pude voltar para a estação João Dias com o sentimento de ter acompanhado um grande festival, bem curado e que se preocupou em elevar a experiência da música alternativa em um espaço que ela merece estar.
O público parece ter saído satisfeito com o todo e as expectativas para o próximo Balaclava ficaram evidentes.