
Mais um Balaclava Fest finalizado, e essa 14ª edição consolida cada vez mais o festival! Neste ano, dois grandes shows foram os mais aguardados: BADBADNOTGOOD e Dinosaur Jr., o primeiro foi grandioso e o destaque do dia, o outro arrebatou fãs de todas as gerações.
Novamente o evento ocupou o espaço do Tokio Marine Hall na zona sul da cidade de São Paulo, local fechado e com ar condicionado (ótimo para o dia quente que fez na cidade). É uma ótima casa de shows com estrutura, mas fazer um festival lá dentro é sempre um desafio, e o maior de todos com certeza é o palco “secundário” (localizado no hall de entrada da casa), que nesse ano acabou tendo os mesmos problemas do ano passado: palco baixo e som mal ajustado (afinal ali não tem acústica por ser improvisado). As fotos são do Kauã Nascimento.
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Paira

O atraso na abertura das portas culminou no atraso dos primeiros shows, mas quando o duo belo-horizontino Paira subiu ao palco, acompanhado pelos músicos de apoio, a gente sentiu que tudo tinha começado. A apresentação teve pouco mais de 30 minutos e iniciou um pouco conturbada devido a qualidade do som, problema que atrapalhou, em partes, todos os shows do Palco Hall.
Todos os lançamentos da Paira saíram nas playlists do Polvo Manco, eu gosto bastante do som deles, mas a pouca experiência em palco dificultou o entrosamento. Ao redor, várias pessoas aproveitando o show, mas a grande maioria não parecia se impactar pela apresentação, mesmo a banda entregando o melhor que podia, infelizmente festival é assim mesmo, tem gente que vai para ver um ou dois artistas e ignora todo o resto. Dentro das circunstâncias e da pouca experiência de palco, Paira fez um show honesto com sonoridade densa que ecoou por todos os lados.
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Raça

Eu, viúvo do disco “Saúde” (2019), estava ansioso para ouvir àquelas que sei de cor, e a banda Raça me agraciou com alguns dos clássicos desse álbum, mas também trouxe canções do mais recente trabalho “27”. Os shows da Raça sempre me agradam muito, pois é uma banda verdadeira, sobem no palco, dão a vida tocando e não tem preocupações e pretensões disso ou daquilo, são amigos fazendo música!
No repertório “Bandidos e Divas“, “Notas e Noias“, “Nem Sempre Fui Assim” e “144“, todas muito aclamadas (e cantadas) pelo público. Popoto, sempre simpático, interagiu com os fãs e mostrou que a banda sempre está muito próxima de quem a quer bem. A apresentação foi justa e verdadeira, mas não foi a minha preferida entre os shows do Raça que já fui.
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Ana Frango Elétrico

Todos os músicos uniformizados com camisa de tigrinho fizeram uma introdução bossa indie instrumental para abrir a apresentação. Quando Ana entra ao palco, com um véu cobrindo o rosto, os acordes de “Coisa Maluca” tocam e quem ainda não tinha visto o show dessa nova turnê estava pronto para apreciá-lo. Infelizmente nas duas primeiras canções o microfone de Ana estava muito baixo e não dava pra ouvir quase nada (e nesse momento eu estava bem próximo das caixas). O repertório quase todo contemplou as músicas de “Me Chama de Gato Que Eu Sou Sua”, como “Boy Of Stranger Things“, “Dela” e “Insiste em Mim“, mas a aclamação veio com “Camelo Azul”.
Quem ficou na grade, infelizmente, ganhou um som ruim, eu logo percebi e corri para trás, onde fomos agraciados, após os ajustes, com um ótimo som. Poderiam ter aproveitado para fazer projeções atrás dos músicos, isso daria um clima mais interessante para o show. Quem nunca tinha visto Ana Frango Elétrico ao vivo gostou, quem já tinha visto também. Apresentação coesa e bonita, mas comedida, se comparar com os shows da turnê anterior veremos um certo abismo.
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Nabihah Iqbal

A cantora inglesa de raízes paquistanesas foi uma grata surpresa. Entre os nomes do festival, esse show era o que eu mais queria ver e não sei o motivo, afinal não conhecia a artista. Me dirigi ao palco achando que talvez não tivesse muita gente por lá, mas eu estava enganado, o espaço estava quase cheio ainda enquanto rolava Ana Frango Elétrico no palco principal. É engraçado como a música toca as pessoas, antes mesmo de acabar a primeira canção, ao meu lado, uma mulher já estava em prantos chorando de emoção.
O mais recente disco de Nabihah Iqbal, “DREAMER”, alçou a carreira da cantora para outros lugares e foi baseado nesse trabalho que o show se desenvolveu. A questão do som e da visibilidade do Palco Hall jogaram contra, mas mesmo assim a artista foi concisa e coerente em sua apresentação e quem estava ali se deleitou com as canções animadas e dançantes que misturou indie, eletrônico, psicodélico e outras referências.
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BADBADNOTGOOD

Até então esse era o maior show do dia e com certeza não decepcionou ninguém que estava ali. Logo na abertura uma fritarão quase lisérgica com doses de acid jazz tomou conta do ambiente, até eu que nunca fui muito atento ao som da banda já fiquei entregue ao final da primeira música. No contraponto de um show somente instrumental, o baterista Alexander Sowinski tirou o dia para falar e falar e falar…, mas achei muito simpático no final das contas.
Ao fundo da banda foram projetados filmes 16mm que ajudaram a dar um clima legal e agradável para acompanhar as músicas, quase uma trilha sonora ao vivo, talvez até por isso a iluminação direta nos músicos era quase inexistente. Entrei nesse show conhecendo pouco sobre a banda e saí fã. Apresentação impecável, fiquei surpreso com a qualidade, desenvoltura e simpatia, tudo extremamente harmonioso. Chamaram muito o público para participar do show, teve solo de saxofone, teve percussionista tocando triângulo e muitos celulares filmando, além de fumacinha subindo a todo instante.
Não tenho dúvidas que foi um dos melhores shows que vi esse ano, uma redenção para a BADBADNOTGOOD que foi massacrada no show do Mita Festival 2023 em São Paulo quando fãs de Lana Del Rey foram desrespeitosos com o grupo tanto na apresentação ao vivo quanto nas redes sociais.
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Water From Your Eyes

Foi um show ok. De perto o som estava mais ou menos, de longe era difícil de ouvir e impossível ver com o palco baixo do hall. A banda instrumentalmente é boa, mas não tem molho, faltou algo ali no ao vivo, além disso, a vocalista demonstrou zero carisma. Essa opinião reflete mais ao que senti, pois a maioria das pessoas lá aproveitaram bastante, muita gente dançando. Ouvi de pessoas que o sideshow da banda na noite anterior na Casa Rockambole foi bem melhor que esse no festival. Infelizmente o duo não me pegou no ao vivo, mas ouvir no streaming é até legalzinho.
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Dinosaur Jr.

A Dinosaur Jr. fez um show para fãs de todas as idades, quem foi querendo muito ver eles gostou bastante, e quem não tinha apego afetivo pela banda não foi conquistado. Antes da apresentação, me disseram que eles fazem um show bem barulhento, e não deu outra, estava muito alto principalmente para quem estava perto, J Mascis ainda estava rodeado por um paredão e amplificadores Marshall. Logo na primeira música o público cantou junto, foi o show com maior coro do festival, afinal o grupo tocou vários hits de diversas fases de sua trajetória.
Eu estava mais longe e não consegui entender bem o que era cantado (essa é a proposta estética da banda?), mas a sinergia entre os músicos parecia boa, apesar de diversos erros nas músicas (talvez pelo fato de estarem cansados após shows seguidos na Argentina e Chile).
A maior parte do público aprovou, pularam, cantaram, entraram na roda, se jogaram em cima do público e teve até invasão de palco. Foi uma apresentação honesta, dentro do que eles são capazes de entregar hoje em dia, mas saí de lá sem ser arrebatado pela apresentação.
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