
Mais uma edição do Coala Festival chegou ao fim. Esta foi minha nona presença e a terceira vez acompanhando o evento como imprensa. Muito já se falou e se mostrou sobre os shows, mas antes de entrar neles, vale começar pela organização, ponto que pode ajudar quem pensa em encarar as próximas edições.
—
Organização
Quem frequenta o Coala Festival já espera uma boa organização, ainda que com percalços. O acesso entre os dois lados do Memorial, feito por uma única passarela, volta a ser gargalo após os shows noturnos, assim como as filas nos bares. Este ano, o sistema de autoatendimento de chope ajudou a amenizar a espera, mas sem grande impacto. Por outro lado, a água gratuita foi um acerto, contrastando com o preço salgado do chope, a R$ 20.
A estrutura trouxe outros pontos positivos: um telão ao lado da praça de alimentação e da área de descanso permitiu que o público, e quem trabalhava nas barracas e ativações das marcas, acompanhasse as apresentações. Os banheiros, novamente, se destacaram pela limpeza e manutenção constante, algo raro em festivais.
O palco repetiu a mesma decoração do ano passado, sem prejuízo estético, e o som de sábado soou excessivamente alto, corrigido no domingo. Alguns problemas técnicos ocorreram, mas sem grandes prejuízos. Já o tradicional “roubo” das samambaias, neste ano, veio logo no início do show de Caetano Veloso, na última noite do festival, muita gente querendo garantir sua plantinha.
A sala de imprensa ficou ao mesmo lado do memorial onde está o palco, facilitando o trabalho, isso foi ÓTIMO! Porém, não forneceram água dentro da sala, obrigando jornalistas e fotógrafos, que estavam ali trabalhando e criando conteúdo para PROMOVER E DIVULGAR o festival, a atravessar a multidão para se hidratar em pontos sinalizados.
—
Mateus Aleluia, Liniker, Tim Bernardes e Arthur Verocai, os grandes shows!

Mateus Aleluia é uma entidade da nossa cultura e merece estar em qualquer lista dos grandes da música brasileira. No palco, ao lado de quatro músicos que partilhavam dele um brilho no olhar, conduziu um verdadeiro culto. A cada canção, a emoção se espalhava pelo público e se transformava em lágrimas, inclusive minhas. É impossível traduzir em palavras a transcendência daquele momento, mas posso afirmar: foi o melhor show do festival. Para coroar, as participações de Amaro Freitas e Thalma de Freitas no final da apresentação trouxeram ainda mais grandeza. Saí dali com a sensação de ter vivido algo raro, assim como todos que presenciaram.
Liniker, talvez a atração mais aguardada da edição, fez jus às expectativas. “Caju”, seu último disco, é quase todo formado por hits, e isso ficou claro com o público cantando cada verso em uníssono. O primeiro grande ápice veio em “Veludo Marrom”, quando artista e plateia se fundiram em uma conexão única, intensificada por uma banda impecável e um naipe de metais que parecia atravessar direto o coração. Ainda houve espaço para músicas de “Índigo Borboleta Anil”. Em meio à catarse, algumas pessoas passaram mal, e Liniker interrompeu a apresentação duas vezes para garantir atendimento, sempre com expressão aflita e cuidado genuíno pelos fãs. Foi um daqueles momentos em que a grandeza do artista vai muito além da música.

Se Tim Bernardes solo, com violão e piano, já é bom, imagina com orquestra. O show permeou “Mil Coisas Invisíveis”, mais recente disco, mas também trouxe canções de “Recomeçar”. Bastou a primeira nota vocal de “Nascer, Viver, Morrer” (que abriu o show) para eu cair em lágrimas, a voz singular de Tim, somada à acústica perfeita do auditório, criou uma atmosfera arrebatadora. A orquestra ampliava cada emoção, com momentos de pura delicadeza, e o som da harpa, em especial, parecia divino. A plateia, em respeito, cantava baixinho, como se não quisesse quebrar o encanto. No final, veio a surpresa: Tim assumiu a bateria em “Poeira Cósmica”, parceria com os canadenses do BADBADNOTGOOD, encerrando a apresentação em um tom deslumbrante.

Depois do cancelamento em 2024, enfim aconteceu. Arthur Verocai subiu ao palco com sua orquestra em um dos momentos mais aguardados do festival. Simpático e carismático, o maestro reafirmou por que é um dos maiores arranjadores da música brasileira. O repertório trouxe clássicos de seu disco homônimo de 1972, como “Na Boca do Sol”, “Velho Parente” e “Que Mapa?”, além de contar com as vozes de Carlos Dafé, Samantha Schmütz e Paula Santoro. Apesar de três belíssimas vozes, acredito que cantando juntas não tenham harmonizado tanto. Ainda teve participação de Mano Brown na canção “Cigana”, parceria de ambos registrada no álbum “No Voo do Urubu”.
—
Grandes Encontros

Por convite de Marcos Preto, curador do festival, o encontro demorou a acontecer. Chico Chico hesitou no começo, quando aceitou, Nando Reis estava com a agenda cheia, mas em 2025 finalmente se concretizou. O show foi uma celebração da parceria histórica entre Nando Reis e Cássia Eller. Era impossível não cantar junto a quantidade de músicas icônicas, tanto que lágrimas surgiam por todos os lados. Chico Chico, com uma voz quase idêntica à da mãe, consegue imprimir sua própria identidade sem perder o jeito serelepe que encantava no passado. Mesmo quem nunca tinha visto um show de Cássia, como eu, pôde sentir a magia do repertório repaginado e da atmosfera do palco. Um dos encontros mais emocionantes que poderia ter sido feito na música brasileira.

Cátia de França, Juliana Linhares e Josyara protagonizaram mais um encontro memorável. Entre momentos de rock and roll e xotes que fizeram muitos casais dançarem, o trio emanou uma sintonia genuína, irradiando simpatia, especialmente Cátia, que brincou: “estou tremendo na base”. Embora Cátia tenha cantado pouco, sua presença dominou a apresentação, que brilhou com canções como “Coito das Araras” e “Kukukaya” (Cátia), “Balanceiro” (Juliana), “Rota de Colisão” (Josyara) e “Não Tem Lua” (Asa de Águia). A mistura de estilos e personalidades criou um show vibrante, cheio de vida e calor humano. Vida longa à mestra Cátia de França.

Com a banda toda vestida de branco e alguns de adereços cor de rosa, Anelis Assumpção transformou o festival em um grande baile reggae. A performance, com banda completa, ainda contou com três backing vocals talentosas, além de trompete e trombone impecáveis. A participação de Lazzo Matumbi foi impactante. Sua voz imponente ecoou pelas caixas de som e arrancou reações de surpresa do público, ouvi muitos “caraaaalho!” ao redor. Juntos, esbanjaram simpatia, o sorriso largo e as palavras calorosas de Lazzo, somados à energia da banda, tornaram impossível não se entregar à energia do palco. Mesmo eu, que não sou grande fã de reggae, me deixei levar pelo clima contagiante.

Tássia Reis voltou ao Coala para apresentar seu trabalho autoral que já fez década. O show começou com “Ofício de Cantante”, contagiando o público que acompanhou com palmas, e seguiu com clássicos como “No Seu Radinho” (2014) e “Shonda” (2018). O mestre Kiko Dinucci, participação especial do show, brilhou ao violão em “Previsível” (parceria com Tássia) e ainda tocou “Veneno”, música de seu disco “Rastilho”, embora parte da plateia estivesse dispersa e conversando durante sua participação. Para encerrar, de surpresa, a MC Monna Brutal subiu ao palco com seu flow extremamente rápido em “Dollar Euro”, deixando a apresentação com energia máxima e final vibrante.
—
Artistas da Casa

Que show! Mesmo com um público menor, Dora Morelenbaum provou ser uma artista de verdade. Com presença de palco contagiante e músicas animadas, ela criou um clima tão gostoso e dançante que até quem não conhecia suas canções foi imediatamente envolvido pelos arranjos e pela voz impecável. No repertório, destaques de “PIQUE” (seu único disco), como “Essa Confusão”, parceria com Zé Ibarra que também tocou a canção em sua apresentação, porém a versão de Dora ficou muito mais legal. Sua banda impecável entrelaçou arranjos harmoniosos com o alcance vocal da cantora, fazendo muita gente dançar até a sola do sapato quase descolar.
Zé Ibarra abriu o segundo dia de festival acompanhado de sua banda, com destaque para o excelente trombonista Antonio Neves, que inclusive fumou um cigarro durante o show e ainda teve fôlego para continuar tocando. Foi a primeira vez que vi Zé Ibarra se apresentando com trabalho solo, antes, só tinha acompanhado com a Dônica e Bala Desejo. No show, ele trouxe canções de “AFIM”, seu disco mais recente. A apresentação foi muito bem feita, redondinha e gostosa de assistir, mas acho que deve funcionar melhor em um teatro, onde a ótima voz de Zé Ibarra conseguiria se espalhar e reverberar com ainda mais força.

—
Estreias
Uma das grandes bandas brasileiras que eu ainda não tinha visto, o Cidade Negra fez a marola subir já na primeira música, apesar do atraso por problemas técnicos. A voz de Toni Garrido começou um pouco baixa, mas logo foi ajustada. Um detalhe que chamou atenção foi o telão com imagens de I.A., gente, sério, vamos pagar um artista foda para criar algo legal, porque I.A. acaba ficando meio brega. O show trouxe muitos clássicos, mas boa parte do público à frente não se envolveu muito, com bastante falatório. Circulando pelo espaço, percebi que quem estava mais atrás ou perto do bar aproveitou e se divertiu bem mais. Apesar disso, Toni Garrido e Bino Farias estavam à vontade e claramente felizes, finalmente subindo ao palco do festival pela primeira vez.

Outra banda estreante no palco do Coala Festival, o Terno Rei abriu o show com a faixa “Peito”, enquanto uma garoa fina começava a cair, Ale Sater até brincou que o clima combinava perfeitamente com a banda. O repertório foi centrado no mais recente disco, “Nenhuma Estrela”, mas não deixou de lado “Gêmeos”, com destaque para “Brutal”, que sempre achei parecida com canções da banda O Teatro Mágico (sim, já comentei isso e ninguém concorda). Não foi um show de cantar junto a plenos pulmões, nem é essa a vibe da banda, mas nas músicas do disco “Violeta” o público se envolveu e cantou bem mais. Para fechar, ainda rolou um cover de “Lilás”, de Djavan, encerrando o set para todo mundo cantar junto.

—
Figurinhas Repetidas

Black Alien mobilizou geral e foi considerado por muitos o melhor show do segundo dia. O setlist se concentrou em “Babylon By Gus Vol. 1 – O Ano do Macaco”, e praticamente todas as canções foram cantadas em coro pelo público. O artista mostrou voz e flow afiadíssimos, presença de palco e raciocínio sagaz, ouvi muitos comentando “ele está de volta”. A faixa-título do disco talvez tenha sido a mais aclamada, mas era difícil escolher, com sucessão de hits. Mais uma vez houve projeções de I.A., mas felizmente a música é sempre o foco, e nisso Black Alien foi praticamente impecável.

Caetano Veloso voltou ao Coala Festival, desta vez com banda completa e novos arranjos para clássicos de sua carreira (em 2017, havia se apresentado apenas com voz e violão). O show, tão cheio quanto o de Liniker, começou com gritos tímidos de “Caetano, Caetano”. Ele subiu ao palco calçando um tênis horrendo e cachecol, que logo retirou, mantendo apenas o verde e amarelo no dia da Independência, enquanto outros por aí estendiam bandeira de outro país nesse dia comemorativo. Os clássicos foram cantados a plenos pulmões, enquanto as faixas do disco “Meu Coco” não mobilizaram muito o público. Para os fãs de longa data, o show foi arrebatador, quem ainda não tinha visto, certamente saiu encantado. Assim como nos shows da Bethânia, “Reconvexo” se destacou como um dos momentos altos da apresentação.
Conheci Silva no Lollapalooza de 2014 e, desde então, já fui em diversos shows do artista. Sempre admirei sua voz, embora tenha preferência pela fase inicial de synthpop. O show começou com pequeno atraso, e, em tantos anos de festival, foi talvez a primeira vez que vi um artista naquele horário mobilizar tão poucas pessoas, não em quantidade de fãs, mas de interação. Quando Silva disse “quem sabe canta comigo!”, o silêncio foi quase ensurdecedor, só se ouvia outra coisa, mas talvez a música não fosse conhecida do público geral. Tecnicamente, Silva é excelente, afinado e acompanhado de uma ótima banda conseguiu fluir bem a apresentação. O público engajou mais nas versões trazidas pelo artista, como “Beija Eu” (Marisa Monte), “Eu Amo Você” (Tim Maia) e “Onde Você Mora?” (Cidade Negra).
—
Devido ao conflito de horários, não assisti aos shows de Marina Sena e BK’.
______________________________________________
Leia Também: