Entre Chuva, Conexão e Encontros Geracionais: Como foi a 12ª edição do Coala Festival 2026

Foto do Coala Festival 2026. Foto por Kauã Nascimento.

Resenha por: Fernanda Borges

No último final de semana (12 e 13 de setembro), o Memorial da América Latina virou o epicentro da brasilidade e do experimentalismo. Em mais uma edição do Coala Festival, a curadoria esteve impecável. A música foi o centro de tudo em meio a esse final de semana de chuva e de eventos interessantes pela cidade.

Mas vamos lá: após essa maratona de dois dias de shows e de encontros marcantes da música, venho dividir algumas impressões que ficaram gravadas no meu peito e no de quem viveu o rolê junto comigo (meus amigos queridos <3).

Sábado: Encontros sensíveis, surpresa luandense e a classe de Maria Bethânia

Abrindo o primeiro dia de Festival, Zeca Veloso sustentou a responsabilidade da primeira apresentação e fez um show bonito, calmo e emplacou a atenção do público com o hit Todo Homem, música que tem tocado nas telinhas dos noveleiros de plantão. Teve até coral do público e deu pra sentir a energia de como seria o dia de festival.

Foto de Zeca Veloso. Foto por Kauã Nascimento.

Fiquei animadíssima com o DJ set da Francesca Ribeiro e todas as músicas do set. Ela transitou entre hits atuais da cena independente em que habita e de outras eras, esquentando a pista para o próximo show do dia.

Eis que, finalmente, chegou a hora de contemplar meu primeiro show do Cícero Rosa Lins em minha vida e, honestamente, que show incrível :’). Com sua sutileza sublime embebida em timidez, Cícero e sua absurda banda entregaram uma energia alegre, leve e contagiante em meio às suas músicas aconchegantes e cheias de reflexões nostálgicas. Com a entrada de Duda Beat no palco, a emoção e a conexão dos dois amarrou tudo, fortalecendo os hits de cada um com refrões que estavam na ponta da língua do público. Emocionante de ver e viver isso.

Em seguida, rolou uma das apresentações mais quentes e que mais me surpreendeu em tempos!!! O show do Buraka Som Sistema mudou tudo. Em meio à garoa, eles contagiaram o público do início ao fim com a comunhão do som e da cultura de Luanda a Portugal, transitando entre o ritmo e as referências do Kuduro. Sério, que performance avassaladora! Sem contar todo o carinho que o coletivo soltava sobre o Brasil entre uma faixa e outra, relembrando sua vinda ao país há quinze anos, quando tiveram encontros musicais com Deize Tigrona. Tomara que a curadoria das casas de show de São Paulo os traga de volta o quanto antes.

No cair da tarde, já com uma trégua da garoa, o encontro geracional de Marcos Valle com Ana Frango Elétrico foi uma baita aula de contemporaneidade. As linhas de som de Ana encaixavam perfeitamente nas notas do nosso gênio instrumentista, em um arranjo sonoramente divertido e contagiante. Músicas dele na voz delu, músicas delu na voz dele… realmente, uma combinação linda, que me lembrou muito a apresentação de Ana e Jards Macalé no Coala Festival de 2023. Mais uma canetada da curadoria.

Foto de Ana Frango Elétrico e Marcos Valle. Foto por Kauã Nascimento.

Antes do último show da noite, Emicida chegou com uma dose de Mesmas Cores & Mesmos Valores em uma formação incrível, onde vale destacar toda a performance de Érica Silva, musicista e produtora talentosa que entregou tudo no contrabaixo e nos vocais.

“Quando a Érica apareceu no telão eu fiquei “É a baixista?”, pois ela tinha acabado de tocar também no show do Rubel. Mas quando começou a cantar em ‘Hoje Cedo’, eu pensei: ‘Emicida, saia do palco e dê lugar pra diva’. Hahaha. Foi uma daquelas descobertas do festival que fazem você sair querendo acompanhar o trabalho da artista.” — Aldi, espectadora do Coala Festival

Com participações do Jotapê, do grupo Puro Suco (Murica, Gustavo Peres e Beat do MK) e a dupla dos Prettos (Magnu Sousá e Maurílio de Oliveira) Emicida pareceu se sentir muito confortável no palco do Coala. Deu a leve sensação de que cantaria com fogo nos olhos (ao subir ao palco ao som de Pantera Negra) como em antigas apresentações, mas se manteve ameno, entregando um show forte e bonito, mas não inesquecível.

Foto de Emicida. Foto por Kauã Nascimento

Por outro lado, para fechar o sábado, o show de Maria Bethânia foi surpreendente, bonito, impecável e de uma presença estonteante. Toda de azul brilhante e de maneira hipnotizante, ela entregou um setlist cheio de clássicos com muito respeito à raiz brasileira, mantendo a classe, declarando apoio a Lula, (sendo ovacionada) e tudo isso na sua pose de artista-inteira, que não se limita e se reimagina a cada apresentação. Minha primeira vez vendo Bethânia foi intensa e bonita.

Foto de Maria Bethânia. Foto por Kauã Nascimento

Domingo: Chuva prolongada, Alma Lavada e a Força Coletivo (da velha-guarda à nova cena)

A dupla Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro abriu o segundo dia de Festival com um show animadíssimo e quente, mesmo naquele climinha londrino, com as recentes faixas do álbum colaborativo Handycam. Mesmo acompanhando eles em outros shows fora do Coala, foi muito maneiro ver os amigos curtindo e se divertindo ao som das músicas do duo mesmo sem fazer ideia de quem eram eles. Definitivamente, foi uma baita escolha da curadoria para as descobertas quentíssimas do público. E claro, ficou nítido que eles vêm chegando para dominar tudo, provando que a cena independente se faz de forma coletiva.

Foto de Sophia Chablau e Felipe Vaqueiro. Foto por Kauã Nascimento

O segundo show do dia enfrentou alguns problemas técnicos no som que duraram até a terceira faixa do setlist de Duquesa. Mas, mesmo com as dificuldades e a chuva apertando, a diva entregou um BAITA SHOW que, honestamente, me fez esquecer os problemas iniciais. Ela contagiou o público de forma magnética. A área externa já estava bem cheia mesmo sendo em um horário cedo do line-up e, entre o repertório recheado de hits & mais hits, Duquesa entregou um dos shows mais fodas do domingo. Banda afiada, representatividade de corpos fora do convencional nos músicos e nas bailarinas fizeram com que ninguém ficasse parado. Mesmo com menos tempo de palco devido ao atraso inicial, ela NÃO se abalou e deixou aquele gostinho de que todos precisam curtir um show solo da Big-D!!!

Foto de Duquesa. Foto por Kauã Nascimento

Com a energia lá em cima que a Duquesa deixou, a finesse de Luedji Luna e sua banda invadiu o palco e transbordou elegância por todo o Memorial. Sério!!! Que espetáculo lindo e contagiante.

No encontro das duas gerações, entre a musa e o Fat Family, ficou nítida toda a gratidão genuína por essa troca espetacular. Admiração, música e respeito de quem e para quem pavimentou a estrada até aqui. Certamente o grupo poderia ter tido mais tempo de palco com a Luedji, mas ainda assim foi um show intenso, bonito e nostálgico de uma maneira bem ~chic (à lá Luedji Luna).

Foto de Luedji Luna. Foto por Kauã Nascimento

Correndo da área externa rumo ao auditório Simón Bolívar, Tom Zé já esperava a plateia numa energia caótica e bem-humorada que só ele tem para entregar mais uma apresentação linda e marcante. Entre muitas trocas com o público e arrancando risos da plateia ao lado de sua banda, ele cantava dialogando exatamente o que eu precisava ouvir no momento. A música e ele têm essa capacidade sinestésica de nos encontrar, desmontar, remontar e transbordar em meio a tantos significados, dando aquela recarregada na energia para continuar a vida e, claro, o restante do line-up.

De volta para a área externa, soube que durante o show do Tom Zé, o Rom Santana & Edmilson dos Teclados animaram muito a pista com seu carisma e talento, mantendo a energia lá em cima para combinar com o próximo show de João Gomes. Deu pra curtir apenas o finalzinho da apresentação dele, mas sem dúvidas, que baita energia!!! 

Na chuva, aguardando ansiosa pelo show de Seu Jorge, realmente, nada parecia me abalar diante da ansiedade para o show do Criolo.

Quando Seu Jorge entrou no palco com tamanha elegância e requinte, o groove, o som, as luzes, as cores, seu swing… tudo!!! tudo parecia estar em uma incrível e sublime comunhão. Sem contar todo o entrosamento da banda. Simultaneamente, eles tocam, dançam, cantam e arrasam muitooooooo. Foi um baita show onde ele fez questão de honrar a sua brasilidade e, de certa forma, fez com que uma apresentação dessa proporção nos fizesse sentir parte do todo ali mesmo, mesmo debaixo de chuva.

Foto de Seu Jorge. Foto por Kauã Nascimento

Mas o ponto alto da noite foi o show do Criolo. O show mais esperado do dia (por mim) :’).

Criolo trouxe ao palco do Coala a celebração dos 15 anos do disco Nó na Orelha. Acompanhado da formação original da turnê do álbum (que rolou em 2012), Kleber pareceu relembrar toda sua trajetória, dentro e fora da música,fazendo disso sua força maior na entrega do show.

Ao iniciar com Mariô, música de resistência afro-brasileira na força do orixá Ogum, ele movimentou toda a energia do Memorial que estava loooootado para vê-lo.

Do presente ao passado, Criolo deixou clara a importância de honrar a caminhada que nos trouxe até aqui, que o trouxe até ali, com todos que estavam fazendo essa celebração acontecer. Sabemos que o tempo não é linear e que coisas de agora podem fazer sentido no passado, assim como coisas do passado podem nos visitar e fazer sentido no agora. E entre todas as músicas do setlist, nesse espaço-tempo, senti que a emoção que me dominava naquela noite embaixo de chuva, ao lado dos meus amigos mais queridos, era igual à emoção que senti ao vê-lo pela primeira vez em um show da Virada Cultural de 2013. 13 anos depois, o sentimento foi revivido de forma imensamente catártica e louca. 

Foto de Criolo. Foto por Kauã Nascimento

Música como Não Existe Amor em SP que já não era tocada e sentida da mesma forma, foi revivida de maneira visceral. E quando parecia não dar para viver mais fortes emoções, Criolo convidou Seu Jorge com sua flauta transversal para tocar Ogum Ogum. No telão, as artes mais belas referenciando os elementos do orixá; no palco, a alegria de quem estava celebrando quem sempre esteve lá; e na pista, um público pra lá de contagiado. Todos os versos das músicas do setlist foram cantados aos gritos, expulsando o que tem que sair e rezando o que tem que vir e ficar. E ao finalizar essa celebração com a música Bogotá, a festa que se encerrava deixou rastros e, espero que tenha lavado a alma de cada um, assim como a minha.

Honestamente, esse foi um dos melhores shows do Criolo que fui em tempos. E olha que o show do Criolo é um dos que eu mais frequentei nessa minha trajetória de showzeira. como já diria ele em Breáco: só pode falar de vida quem vive. E nós vivemos a 12ª edição do Coala surpreendentemente bem.

Vale ainda um pitaco sobre a pista, as ativações e o veredito final do fest?

A infraestrutura e a curadoria do festival acertaram em cheio em muitos pontos, tanto no line-up quanto nas ativações.

  • O público foi mesclado, assim como o line-up. Pareciam interessados do começo ao fim, sem nenhum tipo de perreco ou alvoroço.
  • O formato de apenas 2 dias ao invés de 3 funcionou muito bem, garantindo uma atmosfera mais gostosa, mesmo sob chuva contínua.
  • Comidas e bebidas foram um baita ponto positivo. A nova cerveja patrocinadora, com seus totens automáticos, foi o ponto alto do rolê. Por outro lado, as marcas de destilado e drinks rápidos deixaram a desejar.
  • Mais uma vez, todo meu amor pela boa estrutura funcional dos banheiros do Festival.
  • Destaque para a distribuição gratuita de água em vários pontos do Memorial. (sério, ótimo).
  • Os brindes poderiam ser mais úteis para o clima do final de semana (como capas de chuva ou necessaire impermeáveis), mas ainda sim valeram a pena.
  • A proposta de ser um evento sustentável com foco em reciclagem acaba se perdendo do meio para o final do dia (nos dois dias).
  • Os Dj Sets são ótimos e de boa curadoria, embora esse ano tenha parecido que todos os Djs combinaram de tocar Samurai, do Djavan em seus sets. Talvez tenha ficado faltando um pouco mais de funk em alguns sets, mas nada que tirasse o brilho de tudo.

Enfim, a 12ª edição do Coala Festival provou que inovar e respeitar quem veio antes é a regra. E mesmo com os pés e roupas molhados, a alma saiu lavada e transbordando música. Viva a música brasileira! 💐

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